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Empresas estrangeiras contratam para "start-up"

Fonte Valor Online


Geral - 27/07/2009 20:02


 
Cresce o número de companhias de médio porte que buscam profissionais para iniciar operação no país.

Com a crise mais acentuada nos Estados Unidos e na Europa, e o consequente esfriamento do mercado, as companhias estrangeiras, especialmente as de pequeno e médio porte, passaram a buscar nos países emergentes alternativas para manter os negócios funcionando e compensar as perdas.
No Brasil, consultorias e empresas de recrutamento detectaram que o número de empresas interessadas em começar a operar em solo nacional dobrou no primeiro semestre em comparação com o mesmo período do ano passado.
O total das que fecham negócio de fato subiu em média 30% após as turbulências na economia se intensificarem.
"Elas querem saber como funciona o país, seu regime tributário, fiscal e jurídico, além das características do mercado e da concorrência para o produto que oferecem", afirma Joel Garbi, diretor da Boyden no Brasil.
De acordo com ele, essa vinda não envolve grandes investimentos e geralmente começa com a montagem de uma pequena estrutura que, dependendo dos resultados, pode ou não ser ampliada . "É possível iniciar as operações apenas com a contratação de um diretor regional, de preferência com sólida experiência na área comercial, e um diretor financeiro", explica. Garbi diz que os executivos costumam fazer a entrevista final pessoalmente com os comandantes da matriz, além de um programa de integração e até mesmo algum treinamento mais
específico no país de origem da organização.
 
O perfil dos profissionais responsáveis por esse "start-up", no entanto, deve ser diferenciado, uma vez que eles precisarão se reportar diretamente aos líderes no exterior e acumular funções. "O executivo deve ter motivação para começar um negócio do zero, mesmo que não seja o dele. O Brasil, contudo, é um país de empreendedores e muitos apresentam essa característica", afirma Luiz Wever, sócio-diretor da divisão nacional da Odgers Berndston.
Na opinião de Wever, é fundamental que as empresas interessadas em começar a atuar em outros países contratem executivos locais. "A crise deixou alguns profissionais de alto nível ociosos ou até mesmo desempregados, principalmente no exterior. Mesmo assim, não compensa enviar um executivo para iniciar um projeto fora", diz. O sócio-diretor garante que, além da vantagem de conhecer a cultura e o mercado, o executivo brasileiro é hoje respeitado no mundo inteiro.
Wever lembra de um caso bem sucedido que participou. "Há um ano e meio, uma companhia nos requisitou três executivos para começar a atuar no Brasil. O desempenho deles foi tão bom que hoje já são 26 funcionários contratados."
O sócio-gerente da Asap, Carlos Eduardo Ribeiro Dias, concorda que em uma operação menor é preciso começar com quem já tem experiência na região.
"Depois, com o negócio já estabelecido, é possível trazer algumas peças-chave da matriz para alinhar e fortalecer a cultura da organização", diz. Para ele, além de habilidades óbvias como a parte técnica e fluência em inglês, o executivo deve ser polivalente.
"Esse gestor vai ter que cuidar um pouco de tudo, ter uma visão abrangente. Isso exige maturidade e experiência."
Segundo Garbi, da Boyden, o tempo médio para encontrar esses executivos fica entre 3 e 4 semanas. Na opinião dos consultores, além das empresas americanas, as européias são as que mais tem procurado o Brasil para fazer negócios.
A Câmara Brasil-Alemanha de São Paulo, por exemplo, calcula que no ano passado recebeu 5.500 consultas de empresas alemãs com interesse concretos no Brasil e que o ritmo continuou estável mesmo após a crise. "Temos aqui uma excelente situação político-econômica e um desenvolvimento promissor para os próximos anos", afirma o presidente da instituição, Weber Porto. Para ele, a economia alemã é fortemente dependente do comércio internacional e precisa buscar novas oportunidades, uma vez que a crise afetou seus parceiros mais
tradicionais.
"O Brasil tem conquistado a atenção dos alemães, que estão interessados em conhecer mais profundamente a região", diz. Porto ressalta que iniciar as operações com um parceiro local é outra opção para quem vem de fora. "Após uma 'joint venture', fica mais fácil aumentar a presença por meio de uma estrutura própria em um segundo momento."
É o caso da americana Crown Iron, que atua no setor de tecnologia de processos e equipamentos para a extração e refino de óleos vegetais e biodiesel, e era representada no Brasil por uma empresa no Sul do país. Desde março, no entanto, decidiu abrir seu próprio escritório.
 
Como é a detentora da tecnologia dos equipamentos, manteve a parceria com a empresa nacional para fabricá-los e passou a importar parte dos produtos direto da matriz.
Depois de sete anos na área de finanças da multinacional Johnson Controls, o controller Fábio Poscai aceitou a proposta para expandir os negócios da Crown Iron. No total, são cinco pessoas na operação, incluindo um gerente brasileiro residente nos Estados Unidos.
"No começo fiquei com um pouco de receio, pois estava acostumado a trabalhar com uma estrutura diferente. A empresa, no entanto, tem um plano bem detalhado de crescimento e desenvolvimento. Achei que seria um desafio interessante", afirma Poscai, que foi entrevistado pessoalmente pelo vice-presidente de finanças do grupo em Minneapolis, nos EUA.
O executivo afirma que faz um pouco de tudo na empresa, desde finanças e recursos humanos até a parte legal. "Isso me traz mais bagagem e experiência, pois eu era especialista e passei a ser generalista", afirma. Embora sinta falta de uma estrutura mais bem definida, Poscai vê vantagens em atuar em uma escala reduzida. "Temos metas definidas e autonomia para fazer as coisas do nosso jeito."
A multinacional francesa Keyria, que fabrica equipamentos e desenvolve projetos para a indústria cerâmica, inaugurou um escritório em fevereiro na cidade de Itu, um dos maiores pólos do país no segmento. São três pessoas tocando a operação, que fica sob a supervisão da unidade americana. A diretora financeira e administrativa Larissa Naracci passou um mês em Denver, nos EUA, onde foi entrevistada e treinada.
"Todo o 'know how' vem de fora e encaminhamos os projetos para serem produzidos aqui de forma terceirizada", explica.
Larissa conta que o grupo tinha a missão de abrir uma unidade em um país emergente e escolheu o Brasil devido ao grande potencial de mercado e ao atraso das fábricas e das tecnologias usadas no setor - o que no caso da Keyria significa mais clientes.
"Embora a estrutura seja pequena, temos todo o apoio que uma multinacional pode oferecer. Estamos em contato direto com o pessoal no exterior", afirma.
Joel Garbi, da Boyden, afirma que a vinda das empresas estrangeiras de médio e pequeno porte é uma tendência que continuará por muitos anos, mas que esse é um momento especialmente interessante para elas fazerem isso.
"Quando a retomada da economia ganhar força, muita gente vai querer recuperar o tempo perdido investindo nos países emergentes. Quem já estiver com os negócios estabelecidos levará vantagem", afirma.



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